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6. David Alleno

Túmulo de David Alleno

A estátua de David com seus instrumentos de trabalho: a vassoura, o regador e as chaves.

Parem aqui um instante. Esta tumba é diferente das outras. Ela não é monumental, não tem colunas gigantescas de mármore e não pertence a um presidente, general ou milionário. Pertence a um homem que, durante quase três décadas, cuidou das sepulturas dos outros.

O Cuidador da Recoleta

Seu nome era David Alleno. Ele trabalhou no Cemitério da Recoleta por cerca de 28 anos. Durante todo esse tempo, sua rotina era limpar os caminhos e zelar por aquele enorme labirinto de mausoléus. Ele conhecia a Recoleta como ninguém. E, pouco a pouco, surgiu nele um desejo: um dia, ele queria que sua última morada fosse justamente o lugar onde havia passado grande parte da vida.

David economizou cada centavo de sua vida simples durante anos para conseguir comprar um pedaço de terra dentro de um dos cemitérios mais caros e exclusivos de Buenos Aires. E ele conseguiu.

A Estátua e os Instrumentos

Mas David não queria simplesmente colocar uma placa com seu nome. Ele procurou o escultor italiano Achille Canessa com um pedido muito particular: não o vestisse como um aristocrata ou um político importante. Ele queria ser lembrado exatamente como viveu.

Na estátua, David aparece vestido com suas roupas de trabalho, cercado pelos objetos da sua rotina: a vassoura, o regador e as suas chaves. Foi uma escolha extraordinariamente humana de não ter vergonha e não esconder a sua profissão.

A Lenda das Chaves e a Verdade Oculta

A versão tradicional e macabra da história diz que David estava tão obcecado com a própria tumba que não quis esperar pela morte. Segundo a lenda, assim que o túmulo e a escultura ficaram prontos, ele teria voltado para casa e cometido suicídio para "estrear" seu mausoléu imediatamente.

Dizem que, ao amanhecer, com o cemitério vazio, é possível ouvir o som das chaves dele pelos corredores... clinc... clinc... clinc..., como se o velho cuidador continuasse fazendo o seu trabalho de vigiar os mortos.

Apesar de fascinante, os documentos desmentem o suicídio imediato. A certidão de óbito de David Alleno mostra que ele faleceu anos depois de a tumba ficar pronta, em 1915, de traumatismo craniano.

De qualquer forma, a essência permanece: num local onde a maioria das pessoas que lá descansam passou a vida tentando conquistar dinheiro e poder, David Alleno só queria uma coisa muito mais simples: ficar ali. E talvez seja por isso que, mais de um século depois, ele continue sendo a alma mais presente e lembrada de todo o cemitério.

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